Não mexo com a gravidade
E ela não implica comigo
Quando quer imperar, ela impera
Quando quero voar, eu consigo
Tenho medo mesmo é do efeito
Que ela, estranha, pode me causar
Se não age quando estou direito,
É forte quando entro no mar
Também não sou de brincar com fogo
Mas ele teima em se alastrar
Seguindo meus passos de louco
Iluminando a metade do rosto
Masoquistamente risonho
E que, por ora, está a salvo:
Descansa estéril de sonho
Enquanto a água e o fogo se anulam
Um ao outro querendo ganhar
Só pra ver qual vai me levar
(Rodolfo Amaral e Brayan Carvalho)
“O seu modo de locomoção é, como todo o resto de si, atípico. Na teoria, anda como se anda: um pé na frente do outro, alternadamente. Mas este procedimento, vindo desta criatura, parecia tão bizarro quanto o descrito – ir colocando um pé na frente do outro e, deste modo, alcançar seu destino.
Não falava normalmente, também. Aliás, posso dizer que não fazia nada do modo convencional. Mas não é gente excêntrica por opção, daquelas que, de início, aprendem as tradições para, então, se aborrecerem com elas e as subverter. Não era o caso: a criatura sempre ignorara as convenções. Talvez, é verdade, já as houvesse visto, mas preferia fazer as coisas do seu modo. Poderia ser o caso de não querer ou conseguir usar a memória para coisas demasiado triviais, pois, para que preocupar-se em lembrar os modos de se comer? Bastava-lhe sentir a fome que inventava a feitura de matá-la do jeito que achasse por bem. Aliás,”achasse por bem”? Não. Arrisco dizer que também não se preocupava em “achar” qualquer coisa.
Tal criatura, tão incomum quanto se pode imaginar por este breve relato, provocou-me esta última divagação, pela qual peço sinceras desculpas. Eu tentava, antes disso, descrever como a criatura falava. Na tentativa de tentar me fazer entender, relatei que ela não falava normalmente, mas julgo ter me expressado de modo equivocado, uma vez que ela se expressa muito mais eloquentemente do que nós que, apesar de claramente mais avançados intelectualmente, ainda precisamos deste artifício chamado palavra para nos (mal) interpretar. Que homem pode ser lido apenas com palavras, afinal?
Seus gestos carregam sempre uma ênfase apocalíptica. Seus gritos, grunhidos, sussurros, balbúcias, tabiques e titubeios são testamentais. Ninguém teria sucesso em acrescentar algo mais definitivo à sua curiosíssima gramática, em qualquer sentença gutural que a criatura proferisse.
Eu certamente sentiria grande prazer em continuar a relatar ao caro amigo o que consegui extrair deste breve e assombroso contato de oito meses com esta criatura tão particular, mas receio precisar encerrar, por ora, o relatório oficial. O dispositivo especial – algo branco, fofo e que deve ser usado pela criatura mais ou menos como usamos nossas roupas de baixo – está, certamente, preenchido por detritos. Ela, a criatura, está perto o suficiente pra que eu sinta. E me sorri.
Ah, o sorriso dela… Caro amigo, eu realmente preciso relatar o modo como ela me sorri, na próxima carta. Aqui, vai tudo bem. Um dia a gente se vê e, enquanto isso, cuido dela pra você. Você devia se orgulhar. Seu sacrifício valeu a pena.”
Trabalho. O escritório, aquele ambiente: gente feia junta pra fazer o que não gosta em troca da sobrevida no fim do mês - e a desesperança constante. Até que ela chega. Ou sempre esteve, e numa esquiva momentânea da apatia que, desde sempre, costumava ter a mim como alvo, eu a vi chegar.
Ela vinha vindo, vindo, e eu a vendo vir e me boquiabrindo, ela num vestido vinho. E eu - a degustar. Linda, um espetáculo. Não aquele tipo gostosa-safada que todo homem que pega adora, e os que não conseguem, invariavelmente pensam que “é piranha, mesmo”. Ela era diferente.
Eu sabia que não tinha chance, um pingo, uma porra de chance, no way. Tira essa ideia da cabeça. Mas também, quem teria chance? Ela era daquelas que faziam os ressentidos pensarem “deve ser lésbica”. E devia mesmo. Afinal, aonde econtraria homem à altura?
Fim do expediente. A hora naquele purgatório setorizado nunca passou tão rápido. Pois eu vagava: a via indo, quando ia, e vindo, quando vinha, e tanto fazia que tinha trabalho atrasado. Papel, papel, papel, porra de papel, pra que tanto papel, eu pensava, mas pensaaaava, há mil anos, ou ontem, na era em que não a conhecia. Hoje não tenho tempo. Quem liga tanto pra papel não viu aquela mulher.
Simpaticíssima. No elevador, puxa conversa comigo. Tinha mais gente lá, outro a respondeu, mas eu vi quando, num momento, ela me viu a vendo. Coitado, o cara não tinha percebido.
O elevador se abre e saímos do prédio. E agora? Será que ela vai pro mesmo lado que eu? Pra que lado eu vou? Nem sei mais. Tento adivinhar o lado pra onde ela vai. Estamos lado a lado, aí finjo falar ao celular pra diminuir o passo. Ela vai indo, nem pra um lado, nem pro o outro: para de frente pro carro na calçada. Carrão. Deve ser do pai. Um coroa sai de lá. Sim, é o pai, é o pai! Parabéns, papai! Sua filha, vou te contar. Meus parabéns, de novo. Você é um gênio que fez uma obra-prima. E que haja obras-irmãs, claro, e que elas venham trabalhar aqui também.
Opa, mas que porra é essa? O pai dando selinho na filha nessa idade. Gente estranha. Tudo bem, eu torceria pra não ter uma filha tão linda e não correr o risco de pensar em coisas incestuosas. Se tiver mesmo feito outras obras irmãs dessa, a casa do velho deve ser um harém. Deus que me perdoe, ainda bem que não sou nem pai.
Ele a conduz à porta do carona e a sua mão enrugadinha desliza da cintura da filha pra… bunda da filha da puta! Pai é o cacete! Sim, aquele cara já devia até ter netos, mas não com ela, e nem dela… E não venha me dizer que isso é amor. Amor é o caralho. Aquilo é putaria, aquela mulher é uma vadia, dessas vadias lindas que eu nunca, nunca vi, e nunca vou voltar a vislumbrar.
O carro é bom e faz “vrum vrum”. A menina linda que eu via indo era só uma vaca vã e vil que estava à venda mas não valia nada.
Tudo o que não parece é.
Um singelo conto inspirado na figura de Dalton Trevisan
Tudo aquilo o que me despertou as vistas tempos atrás me fará nublá-la novamente. Por dourado e tenso que soube ser um dia, tão-logo assustei-me com a condição: não mais vejo. Que mais?
Ver, qualquer cego o pode fazer. É verdade, vêem diferente, e está isso claríssimo a todas as pessoas. Há tipos de visão, e os mais interessantes não se vêem em quem tem olhos. O que vês quando Beethoven escorre de leve da agulha da vitrola, tomando o recinto por inteiro, enegrecidamente o azulando, qualquer seja a sua extensão?
Beethoven ouvia com os olhos, compunha com algo que ainda não descobri, e eu resolvi também ver a sua música, para senti-la de modo mais meu. Beethoven, louco de si, é quem me cega neste momento, e me cegará, sádico, de novo e de novo, sempre que eu me atrever a abrir os olhos novamente. Sua música mergulha minhas retinas numa confusão de cores que se fundem, e aí me afundam num negro infinito. Infinito, sim, mas de começo certo: a primeiríssima nota.
Ele hoje me cega aos poucos, tocando com seus dedos impuros a minha vista ardida de suas músicas, que antes me eram colírios. A voz rouca do seu piano reverbera dentro de mim. E eu grito.
Quem me ouve, de me ouvir, traz um gosto amargo na boca e na mente. Quem me ouve sofre. Quem me ouve sente. Sente a mim e a Beethoven, transtelepaticamente.
Beber música e embriagar-se não depende dos sentidos. Só dos sentimentos.
Portugal terá DOIS desfalques importantes contra a Coréia do Norte: Deco e Saramago.
Essa dor
Que às vezes me dói tão bonito
Mas que sempre é caco de vidro
Com o qual me pico na veia
É tão estranhamente bela
Às vezes dói tão amarela
Mas sempre me jorra vermelha
Toda ela
Me traz uma calma sincera
Secreta, sinistra, perversa
Que me conduz ao abismo mais branco
Eu duvido
Que tivesses sequer a ideia
De tua arrogância megera
Causar-me torpor tão amigo
Sempre amigo
Da minha vista cansada
Desses meus livros não lidos
Dos meus inconfessos pecados
De uma cinza manhã de domingo
Assim que ela adentrou o salão de festas, viu pelo que teria que passar: um homem, do outro lado do salão abarrotado de gente feliz, parecia tê-la avistado tão imediatamente quanto ela havia feito com ele. Ele deu um sorriso incógnito, que ela não retribuiu. Pelo menos por fora.
Ele, percebendo a inação dela, começou a caminhar em sua direção. No caminho, pegou duas taças do champagne que o garçom oferecia a outros convidados e, quando chegou ao seu destino - e ela sempre fora o seu destino, onde quer que ele estivesse, ele pensou - ofereceu uma taça a ela.
- Boa noite… a senhorita bebe?
- Acho que vou precisar, de qualquer forma. Obrigada.
- Você me pareceu um pouco deslocada, ou é impressão minha?
- Deu pra perceber tão rápido que eu não tenho amigos nesse casamento?
- Ah, tem. É impossível que não tenha… e a noiva?
- Fui convidada por piedade! É que eu fui casada com o irmão dela…
Ele deu uma boa risada. Com isso, ela foi quase forçada a ver o lado cômico da situação. Ela, já no fim da taça, continuou.
- Mas sei que, em algum momento do casamento, eu fui próxima dela. E alguns desses convidados já foram próximos de mim. Mas estou cansada de ouvir “minha nossa, há quanto tempo!” ou “você está ótima!” e, no fim de cinco minutos de conversa do tipo “você está lá ainda?” e “precisamos marcar de nos ver”, perceber que a pessoa só está tentando ganhar tempo pra ver se consegue lembrar o seu nome.
A esta altura da festa, já havia algumas cadeiras vazias e eles perceberam que não eram mais tão jovens quanto os noivos. Sentaram-se.
- Eu tenho uma idéia: que tal gravarmos nossas felicitações para os noivos? Assim, pelo menos os noivos não vão poder te esquecer, haha. Vou chamar o câmera.
- Já gravei as minhas felicitações. Essas coisas eram melhores quando a gente simplesmente falava com os noivos pessoalmente, não?
- Os tempos mudam… mas até que não acho má idéia que os votos de felicidade sejam gravados. Assim, os noivos vão poder olhar a fita anos depois e dizer “essas foram as pessoas que me incentivaram a cometer essa idiotice de me casar!”
- É, não é má ideia…
Agora ela sorri pra ele, mas não consegue esconder um misto de surpresa e decepção. Ele percebe, e entende onde errou. Contorna.
- Apesar de o meu casamento ter sido a melhor época da minha vida.
Ela olha pra baixo. Sabe o que está por vir. Quando vê, de relance, o garçom com uma bandeja ao seu lado, imediatamente pega mais duas taças. Ela sabe que ele vai continuar a torturá-la, e ele continuou. Ela merecia.
- Eu costumava te amar. Por onde você esteve por tanto tempo?
- Eu estive por aqui, mas preferi ficar longe de você. Não, não preferi, eu achei melhor. Acho que tem uma diferença. Agora o champagne não me deixa mais ter certeza disso…
Apesar de não querer entender, ele sabia que, uma vez separados, precisavam ter ficado longe um do outro. Mas foram oito anos longe, e ele ouvindo a risada dela na boca de outras, vendo-a em transeuntes nem tão parecidas, fazendo amor com ela enquanto transava com outras. Agora ele a havia encontrado; era inevitável que tivesse alguma esperança.
O papo entre eles continuava fácil e prazeroso, não importava quanto tempo passasse. Entre comentários irônicos e bem-humorados sobre como estavam as pessoas do passado dos dois juntos, e silêncios constrangedores quando cismavam em revirar esse passado mais a fundo, o tempo foi passando extremamente rápido. Nenhum dos dois percebeu de imediato que eram os últimos da festa e que já tinham bebido o suficiente pra fazer com que o passado pudesse virar presente, pelo menos naquela noite.
- Parece que só sobrou a gente.
- Sim, querida. Só eu e você. Sabe, acho que esse salão hoje serviu de metáfora do nosso destino. Estamos fadados a sermos só eu e você, no final. Nisso, já está provado que nem o tempo tem qualquer controle sobre isso.
- Ele pode nos fazer sofrer por não estamos juntos.
- Eu posso te ver uma vez a cada oito anos pelos próximos cinqüenta anos. E em cada uma dessas vezes, vou saber que você continua minha.
Ela odiava que ele soubesse isso, que ele falasse tão claramente a mais pura verdade do universo. Quando ele fazia essas coisas, ela tinha que pensar novamente que eles não deram e não dariam certo juntos; que amor demais pode ser doença e que, apesar de ela amar aquele espírito livre dele, ela era muito mais sensível e precisava de algo mais seguro e calmo pra viver. Ele era um barco a vela no meio de uma tempestade. Ela não era mais tão jovem pra se aventurar tanto…
E, enquanto esse castelo de pensamentos era montado, ele fez o favor de derrubá-lo com um beijo. Inevitável, previsível e mutuamente desejado.
- Eu sabia. Assim que eu entrei aqui e te vi, eu soube o que iria acontecer…
Ele deu uma risada.
- Mas você não achou que não iria me encontrar no casamento da minha irmã, não é?!
- Eu não disse isso…
As luzes do salão começam a se apagar e a música pára de tocar. Os dois se levantam e seguem em direção à saída.
- E agora, pra onde vamos?
- Para o quarto onde eu estou hospedado, alguns andares abaixo. Eles se beijaram no elevador. Ela teve receio de que alguém da festa ficasse sabendo. Ali havia câmeras. Ela tentou dizer isso pra ele. Ele argumentou que ninguém da festa saberia, porque eram só câmeras de segurança do hotel e que os funcionários já deveriam ter visto coisas piores.
Isso deveria tê-la deixado mais tranqüila, mas ela se remoeu de culpa quando ele falou sobre “coisas piores num vídeo”. Ele saberia em breve.
Eles saem abraçados do corredor vazio, e sem qualquer pressa, como dois recém-namorados. Essa paixão, apesar disso, havia começado há vinte anos - quando os dois tinham por volta dessa idade - e, ao contrário da maioria dos outros relacionamentos que duravam esse tempo, esse ainda tinha a legitimidade quase palpável que lhe permitia ser chamado assim: paixão.
Entram no quarto. Tudo estava feito. Há muito já estava. Se alguém tinha compromisso, já havia traído; se algum dos dois disse a alguma outra pessoa que a amava, havia mentido. Os dois eram cúmplices e já haviam sido condenados.
Então, já que não havia mais saída, trataram de cometer o crime até o fim. Aquilo era o oposto da legítima defesa; enquanto esta é uma maneira trágica de se salvar, a que eles faziam naquele momento, era a maneira mais bela de acabar com as suas vidas, tão confortavelmente normais durante esses anos separados. E, à mesma medida que o tempo passou voando na festa do casamento, o mesmo tempo resolveu diminuir o passo naquele quarto pra repousar naquela cama.
Ele sabia que ela o amava. Ele sabia que ela iria voltar pra ele. Depois da melhor noite da vida dele em pelo menos oito anos, ele seria capa de seqüestrá-la na hipótese - improvável! - de ela querer sumir de novo. O passado não importava mais.
A memória sempre trai os que amam demais, e ela sabia disso. Seria mais fácil se os momentos ruins ficassem gravados em algum local menos patético e influenciável do que a memória?
Entre essas e outras divagações de cada um deles, foi amanhecendo. E ele fazia planos.
- Em que parte da cidade você está morando agora?
Ela se virou para a janela, ficando de costas pra ele, que estava deitado na cama. Fez um movimento displicente com o braço e respondeu: “pra lá”. Assim, de costas, era mais fácil mentir.
- Eu quero o endereço. Vou anotá-lo assim que você quiser ir, porque eu sei que vai querer ir. A gente vai resolver tudo isso com calma, do seu jeito, tá? - disse, sorrindo.
E agora ela fazia exatamente o contrário do que fez quando o viu na festa, pois sorria dos lábios pra fora. E, fingindo surpresa, olhou o relógio.
- Nossa, estou atrasada! Tenho um monte de coisas pra fazer, ainda…
- São seis e meia da manhã e você estava numa festa até as três! Quem, saindo de uma festa às três da manhã e consideravelmente bêbada teria algo pra fazer logo às seis e meia?
- Não logo às seis e meia, mas tenho que ir pra casa antes. E eu não imaginei que isso tudo fosse acontecer até eu te ver. Mesmo sabendo que eu iria te ver… Ah, e eu só falei com a sua irmã pelo telefone e falar com ela, acredite se quiser, era o meu objetivo principal aqui! Então, assim que a vir, por favor, diga que eu sinto a falta dela, e que eu desejo o melhor a ela.
- Pode deixar. Eu digo a ela que fui o culpado pela sua indelicadeza, haha. Mas você não disse que gravou os votos para os noivos? Ela certamente vai ver.
- Ah, claro. É verdade… - virou-se e começou a se vestir rapidamente, com quase a mesma urgência de um fugitivo - eu vou ao banheiro retocar a maquiagem.
Foi com a sua bolsa ao banheiro, sentou no chão, chorou desesperadamente, pensou em ficar, depois pensou no quanto era burra e fraca ao pensar em ficar, borrou toda a maquiagem, parou de chorar, lavou o rosto, retocou a maquiagem, arrancou um pedaço de papel da sua agenda na bolsa, procurou caneta, não conseguiu encontrar, perdeu a paciência e, pra não voltar a chorar, resolveu escrever com lápis de olho, mesmo. Escreveu, e deixou o papel em cima da pia com um frasco de loção pós-barba por cima, pra que não voasse. Mas antes de sair, acabou tirando o frasco de cima do papel. Afinal, pensou, não havia muita brisa naquele quarto de hotel…
- Estou indo. Tenho que me apressar.
- Tudo bem, querida. Mas antes, eu já disse, você vai deixar o seu telefone e endereço. Eu sei que você também quer dar mais uma chance a nós dois. Eu vou ser o homem perfeito pra você, dessa vez.
- Já deixei tudo o que você precisa saber escrito num papel em cima da pia do banheiro.
- Ótimo. Eu te amo.
- Eu também te amo.
Despediram-se com um beijo. Aquele mesmo beijo significava, pra cada um, duas coisas completamente diferentes.
Ela foi embora, e ele voltou para a cama. Tentou dormir, mas não conseguiu. Viu um pouco de televisão e, quando foi tomar banho, deparou-se com o bilhete dela, quase voando da pia:
“Eu não viria ao casamento da sua irmã, então ela pediu por telefone que eu gravasse os votos de onde estava e os enviasse por correio, alegando que era importante que eu deixasse um registro para a posteridade. Então eu o fiz. Mas algo em mim fez com que eu viesse de última hora pra cá e, olha só!, eu te encontrei.
Durante a festa, percebi que você é a pessoa que mais tem o direito de ver esse vídeo e, depois, me odiar pra sempre. Só não queria que isso acontecesse enquanto estivéssemos juntos. Então, se quiser ver o vídeo antes de entregar à sua irmã, eu o deixarei na recepção do hotel, endereçado a esse quarto, assim que sair dele.
Eu vou te amar pra sempre e, por isso, nunca serei feliz.”
Ele se sentou no chão do banheiro, chorou, parou de chorar e deu um salto do chão como se tivesse encontrado a solução, mas olhou pro relógio da sala e viu que tinha demorado demais pra ler o bilhete; pensou em fazer mil maldades consigo mesmo como punição, e a idéia do seqüestro agora era a coisa que mais fazia sentido no mundo. No fim, decidiu se acalmar, tomar um banho e pedir a fita para o serviço de quarto.
Quando recebeu a fita, tudo já estava feito: a fita estava ali, a vontade de vê-la também, o ódio do desconhecido também, então tudo se juntava muito definitivamente para qualquer outra hipótese. Começou a assistir ao vídeo.
Ela aparecia com um vestido vermelho e uma tiara da mesma cor, num quintal com uma casa enorme nos fundos, um casal de crianças pequenas de um lado e um homem do outro, com um braço em volta da sua cintura. Dava pra ver uma aliança brilhando feliz na mão daquele desconhecido. Ela, sorridente, começa a falar para a câmera.
“Júlia, minha amiga! Eu sei que nós perdemos o contato há muitos anos, por isso é provável que você não saiba, mas estou casada e tenho dois filhos…”
Ele a vê pedindo para que seus lindos filhos dêem oi para a câmera. Pensa em quantas vezes devia ter se imaginado com a mesma vida daquele patético sujeito sortudo: com ela e seus filhos.
Mas os filhos deles dois não nasceram. Ela teve filhos. Não os deles dois, mas teve. E ele, o que tinha? Chorou ao ver aquelas crianças que por acaso não eram dele acenando para a câmera.
“Ah, estou morando em Londres, como te contei por telefone. Então talvez fique um pouco difícil de eu aparecer no casamento, né. Mas eu quero que você saia que eu estou muito feliz por você e que eu espero que seja muito feliz na construção da sua família, assim como eu sou na minha. Mil beijos!”
A família toda deu tchau. Ela deveria estar num vôo pra Londres naquele momento. Ele entendia agora que não tinha nada. Percebeu que não tinha mulher. Que não tinha filhos. Que não podia ser tão feliz quanto aquele desconhecido porque ele tinha aquela mulher, e os filhos daquela mulher.
Ele percebeu que as memórias que tinha com ela não podiam competir com as imagens de um vídeo. Começava a duvidar do amor dela por ele - a única coisa de que tinha certeza na vida até então - quando achou, mesmo num mar de tristeza e decepção, que esse era o pensamento mais absurdo que poderia ter.
Há coisas que só a memória pode gravar. Guardou com carinho aquela fita.
“Porque, se não me falha a memória… - ele pensou - Essa é a fita da minha família.”
Amanhã foi um dia bom
Mas ontem será mais legal
Eu, que sempre fui mim,
Nunca fui um eu igual
Aceito dizendo que não
Nego falando que sim
Introjeto meu exterior
E me exploro, implorando por fim
Eu sou, sem tirar nem pôr,
Uma réplica inversa de mim
Dupla face de terno rancor
Navalha doce em amargo cetim
Elefante de dentes de sabre
Tigre que ostenta marfim
E quando implicam por eu ser quem sou
Até explico que não sou assim
Você tem um jeito de falar
Um léxico místico-particular
Que se estende ao meu pensar
Sempre tende a me agradar
E já percebo não poder mais discordar
De uma só palavra
Mesmo poligonalmente errada
Que me apronta o teu pensar
E então me embaralho ao tentar imaginar
O que Ele deve ter pensado ao juntar,
Na labuta pré-vespertina do Criar,
Estes meus ouvidos patologicamente ávidos
Ao seu terapeuticamente lírico
Linguajar